
Quando dois gigantes disputam um pedaço de chão, quase nunca perguntam ao chão o que ele sente.
Talvez seja isso que aconteça quando China e Estados Unidos olham para o Brasil. Um vê comida, minério, floresta, porto, petróleo, estrada, mercado. O outro vê influência, território, poder, medo de perder espaço. No meio dessa briga elegante, cheia de discursos bonitos e apertos de mão, está o Brasil: grande demais para ser ignorado, ferido demais para ser respeitado como deveria.
Ninguém disputa o Brasil por amor. Disputa porque o Brasil tem valor.
E talvez essa seja uma boa imagem para pensarmos também a vida de uma cidade pequena. Ribeirão Branco pode não estar na mesa dos grandes acordos internacionais, mas também tem seus pequenos impérios, seus pequenos interesses, suas pequenas formas de domínio. Tem gente que olha para a cidade como quem olha para uma casa comum, onde todos devem caber. Mas também tem gente que olha para ela como quem olha para um terreno particular, medindo o que pode usar, o que pode controlar, o que pode calar.
O problema começa quando o povo vira apenas paisagem.
Paisagem da promessa, paisagem da eleição, paisagem da foto, paisagem do discurso. O povo aparece na hora do voto, na hora da inauguração, na hora do abraço público. Mas desaparece na hora da explicação. E uma cidade começa a adoecer exatamente aí: quando os poderosos se acostumam a decidir tudo entre si, como se a população fosse ingênua demais para entender ou pobre demais para perguntar.
No fundo, toda disputa por poder tem uma pergunta escondida: quem manda aqui?
No mundo, China e Estados Unidos querem responder essa pergunta sobre muitos territórios. Nas cidades pequenas, essa pergunta também existe, só que com roupas mais simples. Ela aparece na obra sem explicação, no dinheiro que ninguém entende, no favor que vira obrigação, no silêncio de quem deveria falar, na coragem seletiva de quem só grita contra adversários e se cala diante dos aliados.
E não se trata de torcer contra ninguém. Uma cidade não precisa viver de guerra. O povo já tem guerra demais: guerra para pagar contas, para conseguir consulta, para manter comida na mesa, para criar os filhos, para sobreviver com dignidade. O que Ribeirão Branco precisa não é de mais briga. Precisa de respeito. Precisa que a verdade não seja tratada como inimiga. Precisa que pergunta não seja confundida com ataque.
Porque perguntar é um direito de quem mora aqui.
A cidade não é um tabuleiro para poucos moverem as peças. Não é herança de grupo político. Não é extensão de gabinete. Não é propriedade emocional de quem venceu a eleição. Ribeirão Branco é feita de gente. Gente que acorda cedo, que trabalha, que sofre, que espera, que acredita, que se decepciona e, mesmo assim, continua vivendo aqui.
Talvez o maior perigo de uma cidade pequena não seja apenas o erro. O erro pode ser apurado, corrigido, enfrentado. O maior perigo é o costume. É quando todo mundo começa a achar normal o que deveria causar espanto. Normal a falta de explicação. Normal o medo de falar. Normal a política virar assunto de poucos. Normal o povo ser chamado apenas para aplaudir.
Lá fora, os grandes disputam o Brasil porque sabem que o Brasil vale muito. Aqui dentro, precisamos lembrar que Ribeirão Branco também vale. Vale pela sua história, pela sua gente, pela sua memória e pela dignidade de cada morador, que não pode ser tratado como figurante da própria cidade.
No fim, talvez a pergunta não seja apenas quem manda aqui.
A pergunta verdadeira é: até quando o povo vai aceitar ser deixado fora da mesa onde decidem o seu destino?
Aos meus amigos e leitores do Diário de Ribeirão Branco, um abraço na medida de sua necessidade.
Se este texto chegar a 10 mil acessos, sortearemos um livro sobre como as pessoas usam a internet para manipulação.
Até breve!





