
Quando comecei a escrever, talvez eu ainda não soubesse exatamente aonde esse caminho me levaria. Havia apenas uma vontade antiga, quase teimosa, de devolver ao mundo um pouco daquilo que a vida, com dureza e delicadeza, havia colocado dentro de mim.
O projeto 50 Avos nasceu assim: não como vaidade, não como vitrine, não como exercício frio de opinião. Nasceu como tentativa de aproximação. Uma forma de sentar à mesa com o leitor, puxar uma cadeira, oferecer um café imaginário e dizer: vamos conversar sobre aquilo que quase nunca encontra espaço nas conversas apressadas do dia a dia.
Escrevi sobre direito, mas não apenas sobre leis. Porque a lei, sozinha, muitas vezes é parede. O direito, quando encontra a vida, precisa virar ponte. Precisa sair do papel, atravessar a rua, chegar ao sítio, à escola, ao hospital, ao fórum, à fila, ao barco, à casa simples, ao corpo cansado, à pessoa esquecida, ao trabalhador adoecido, à mãe que não desiste, ao idoso invisível, à criança que precisa de cuidado, ao adulto com deficiência que a sociedade insiste em não enxergar.
Escrevi sobre justiça, mas não aquela justiça distante, vestida apenas de formalidade. Escrevi sobre a justiça possível, humana, imperfeita e necessária. A justiça que não se contenta em dizer que todos são iguais quando a vida já começou desigual para tanta gente. A justiça que entende que tratar diferente, às vezes, é o único jeito honesto de diminuir a distância entre quem teve tudo e quem precisou lutar até pelo básico.
Escrevi sobre Ribeirão Branco porque minhas raízes continuam fincadas ali. Há lugares que a gente deixa com o corpo, mas nunca abandona com a alma. Ribeirão Branco mora em mim como estrada de terra, memória de infância, rosto conhecido, trabalho simples, família, pertencimento e saudade. Cada texto publicado também foi uma forma de voltar. Voltar sem necessariamente chegar. Voltar pela palavra. Voltar pelo afeto. Voltar pelo compromisso com uma cidade que ajudou a formar a pessoa que sou.
Mas também escrevi sobre a Amazônia, sobre rios, fronteiras, comunidades, ausências e silêncios. Entre Ribeirão Branco e o Bailique, entre a estrada e a água, entre o interior paulista e a Amazônia amapaense, fui percebendo que o Brasil tem muitas distâncias que não cabem no mapa. Há distâncias feitas de abandono, de burocracia, de preconceito, de falta de política pública, de promessas que nunca chegam. E talvez escrever tenha sido minha maneira de dizer que essas distâncias precisam ser medidas com humanidade.
O 50 Avos também nasceu da dor. Não nego isso. Há dores que, quando não nos destroem, nos obrigam a olhar melhor para os outros. A deficiência, o luto, o cansaço, a vida familiar, a advocacia, a docência, a pesquisa, as perdas e os recomeços me ensinaram que ninguém conhece verdadeiramente uma pessoa olhando apenas para sua aparência. Todo mundo carrega uma parte que não aparece. Todo mundo tem uma luta que não cabe em legenda. Todo mundo precisa, em algum momento, de cuidado.
Por isso, tentei escrever sem apontar o dedo para quem sofre. Apontei, sempre que necessário, para as estruturas que produzem sofrimento. Para o Estado que abandona. Para a sociedade que julga. Para a política que esquece. Para a burocracia que exclui. Para a violência que se disfarça de costume. Para o preconceito que muda de roupa, mas continua ferindo. Para a indiferença que mata devagar.
Também tentei escrever com ternura. Porque a crítica sem ternura pode virar pedra. E a ternura sem crítica pode virar enfeite. O que busquei foi um meio difícil: falar com firmeza, mas sem perder a humanidade; denunciar injustiças, mas sem esquecer que, do outro lado, há pessoas; usar o conhecimento não como muro, mas como instrumento de aproximação.
Ao longo desses textos, falei de educação, de inclusão, de pobreza, de saúde mental, de trabalho, de intimidade, de infância, de envelhecimento, de bullying, de deficiência, de democracia, de imprensa, de fronteiras, de mulheres, de povos, de escolas, de famílias, de comunidades e de silêncios. No fundo, talvez eu tenha falado sempre da mesma coisa: da necessidade urgente de enxergarmos pessoas antes de enxergarmos rótulos.
Porque, antes do pobre, existe uma pessoa. Antes da pessoa com deficiência, existe uma pessoa. Antes do migrante, existe uma pessoa. Antes da mulher julgada, existe uma pessoa. Antes do trabalhador cansado, existe uma pessoa. Antes do aluno com dificuldade, existe uma pessoa. Antes do idoso esquecido, existe uma pessoa. Antes de qualquer identidade, processo, estatística, diagnóstico, endereço ou documento, existe uma vida que merece respeito.
Se o 50 Avos tiver deixado alguma coisa, que seja isso: a lembrança de que a palavra pode ser abrigo. Pode ser denúncia. Pode ser espelho. Pode ser ponte. Pode ser uma pequena luz acesa em um lugar escuro. Não resolve tudo, eu sei. Nenhum texto muda o mundo sozinho. Mas um texto pode alcançar alguém no dia certo. Pode fazer uma pessoa se sentir menos sozinha. Pode despertar uma dúvida. Pode incomodar uma certeza injusta. Pode abrir uma fresta.
E, às vezes, uma fresta já é o começo da claridade.
Agradeço a cada pessoa que leu, comentou, discordou, compartilhou, guardou em silêncio ou apenas passou os olhos por estas linhas em algum momento. A escrita só se completa quando encontra alguém. O autor começa o texto, mas é o leitor quem decide onde ele termina dentro de si.
Agradeço ao Diário de Ribeirão Branco pelo espaço, pela confiança e pela possibilidade de transformar memória, afeto e reflexão em diálogo público. Agradeço também à minha história, inclusive às partes difíceis dela, porque foram elas que me ensinaram a não escrever de cima para baixo, mas de perto, com os pés no chão e o coração atento.
Este não é um ponto final absoluto. É apenas uma pausa com gratidão. Há textos que terminam, mas continuam caminhando dentro da gente. Há projetos que se encerram no papel, mas permanecem como compromisso. O 50 Avos segue assim: como uma travessia feita de pequenas partes, pequenos gestos, pequenas escutas, pequenas luzes.
Cinquenta avos talvez pareçam pouco para quem olha apenas a fração. Mas quem conhece a vida sabe: às vezes, é justamente nas pequenas partes que a inteireza aparece.
Aos meus amigos e leitores do Diário de Ribeirão Branco, um abraço na medida de sua necessidade.
Donizete Furlan.





