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A exclusão é mais antiga que a prostituição

Entre o escândalo moral e o dano real, a sociedade ainda escolhe julgar quem tem menos poder.
Ilustração

A profissional do sexo é “puta”. O político corrupto é filho da “puta”. Quem faz algo errado é um cretino, filho da “puta”. Mas a profissional do sexo é uma pessoa que, muitas vezes, não teve as oportunidades que muitos tiveram. E, como diria Marília Mendonça, mesmo assim, a gente “troca de calçada”.

Há temas que, só de serem colocados sobre a mesa, já incomodam. Este é um deles. Falar sobre profissionais do sexo ainda gera desconforto, julgamento apressado, silêncio constrangedor. E talvez isso já diga muito sobre nós. Porque, no fundo, não se trata delas. Trata-se do modo como a sociedade escolhe enxergar certos corpos e fazer vista grossa a certas violências.

A mulher que vive do próprio corpo, sem romantização, mas também sem hipocrisia, é colocada sob uma luz de vergonha pública. Chamam-na de tudo, menos trabalhadora. É exposta, julgada, reduzida a um rótulo que parece anular toda a sua existência. Como se sua dignidade valesse menos. Como se sua história não importasse. Como se sua escolha, ou, tantas vezes, a falta dela, bastasse para que ela deixasse de ser gente aos olhos de muitos.

Agora, respiremos fundo e olhemos para o outro lado da história.

Vivemos num país onde escândalos de corrupção desviam bilhões da saúde, da educação, da previdência. Dinheiro que faria diferença na vida de quem espera em um hospital, de quem depende da escola pública, de quem trabalhou a vida inteira por uma aposentadoria digna. Dinheiro que salva vidas. E, ainda assim, quem desvia esses recursos raramente carrega o mesmo peso de julgamento moral que uma mulher que vende o próprio corpo para sobreviver.

Percebe a distorção?

De um lado, alguém que negocia o que tem de mais íntimo: o próprio corpo, muitas vezes para pagar contas, alimentar os filhos, sobreviver em um sistema que já a empurrou para a margem. Do outro, pessoas que roubam da coletividade o que nunca lhes pertenceu, comprometendo direitos básicos de milhares. Apesar disso, a palavra “puta” ainda escandaliza mais do que “corrupto” em muitas rodas de conversa.

Isso diz muito sobre a moral que construímos.

Não se trata de fingir que a prostituição não envolve problemas graves, exploração, violência, falta de proteção estatal. Eles existem, e são sérios. Mas talvez seja hora de parar de agir como se o maior problema ali fosse o corpo exposto. Porque, enquanto apontamos o dedo para quem está na ponta mais frágil da corda, muita gente poderosa segue intocável, bem-vestida e socialmente aceita, mesmo causando danos muito maiores.

No fim, a pergunta que fica é simples, mas incômoda: o que realmente nos revolta? O corpo de alguém tentando sobreviver… ou a corrupção que destrói vidas inteiras em silêncio?

Talvez a gente precise rever não apenas os nossos julgamentos, mas também as nossas prioridades.

Porque dignidade não deveria ser seletiva. E justiça, muito menos.

Um abraço na medida da sua necessidade.

Sobre a Coluna

A coluna de Donizete Furlan será publicada semanalmente no Diário de Ribeirão Branco, sempre com textos que entrelaçam Direito, memória e cotidiano. Um convite ao pensamento crítico com raízes no interior.

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