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Bondade que fica

Nem toda bondade faz barulho — mas algumas permanecem por uma vida inteira.
Ilustração

Tem coisas na vida que a gente não consegue explicar direito. Não viram notícia, não aparecem em rede social, não recebem aplauso. Mas ficam. Ficam de um jeito profundo, silencioso, como se fossem pequenas luzes guardadas dentro da gente. Hoje eu não quero falar de lei, de problema ou de cobrança. Hoje eu quero agradecer. Agradecer por uma bondade que talvez nunca tenha sido reconhecida, mas que nunca foi esquecida.

Se você puder, por um instante, diminua o ritmo. Esqueça um pouco a pressa, as contas, as preocupações que não dão trégua. Respire. Pense em alguém que, em algum momento da sua vida, fez algo bom por você — algo simples, talvez até pequeno aos olhos de quem vê de fora, mas que, naquele dia, significou tudo. A vida pode ser dura, eu sei. Mas ela também é feita desses encontros silenciosos com a bondade, que chegam sem avisar e deixam marcas que o tempo não apaga.

Eu tinha 11 anos. Estava dentro de um hospital, na Universidade Estadual de Campinas, depois de uma cirurgia difícil para tentar salvar meu olho esquerdo. Um acidente com um prego tinha mudado tudo muito rápido. Quem já passou por hospital sabe: o medo é grande, o silêncio pesa, e a gente fica pequeno diante daquilo tudo. Ainda mais sendo criança. Ainda mais sem entender direito o que está acontecendo.

Quando acordei da cirurgia e voltei para o leito, havia uma cesta de chocolates ali. Simples assim. Uma cesta de chocolates. Pode parecer pouco para quem está olhando de fora, mas, naquele momento… aquilo foi enorme. Aquilo quebrou o peso do ambiente, trouxe um pouco de cor, de vida, de carinho. Meu pai disse que não foi ele — e eu acredito. A gente não tinha condições. Até hoje eu não sei quem foi.

Mas eu nunca esqueci.

Quem quer que você seja, onde quer que esteja… obrigado. De verdade. Você não estava ali por obrigação. Não precisava fazer aquilo. Talvez nem imagine o que aquele gesto significou. Mas significou muito. Naquele momento de dor, medo e incerteza, você me deu um pedaço de humanidade. E isso não tem preço.

A gente vive num mundo que gosta de dar palco para o barulho, para a briga, para a falta. Mas a verdade é que o mundo continua de pé por causa dessas bondades invisíveis. Gente que faz o bem sem esperar retorno. Sem precisar ser vista. Sem precisar ser lembrada. E, mesmo assim… sendo inesquecível.

Este texto é para você. E também para tantas outras pessoas que fazem o bem no silêncio, no anonimato, no detalhe. Que esses gestos nunca deixem de existir. Que eles se multipliquem, mesmo quando ninguém estiver olhando. Porque, pode ter certeza, em algum lugar, em algum momento, alguém está sendo salvo — ou, pelo menos, acolhido — por algo que parece pequeno, mas não é.

E, se você já fez algo assim por alguém, mesmo sem saber… obrigado também.

Um abraço na medida da sua necessidade.

Sobre a Coluna

A coluna de Donizete Furlan será publicada semanalmente no Diário de Ribeirão Branco, sempre com textos que entrelaçam Direito, memória e cotidiano. Um convite ao pensamento crítico com raízes no interior.

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