
O colunista do Diário de Ribeirão Branco, Donizete Vaz Furlan, acaba de alcançar mais um marco em sua trajetória acadêmica e pessoal. Ex-morador de Ribeirão Branco e atualmente residente em Macapá (AP), ele lançou no último dia 5 de junho o livro Rio, Ribeirinho e Cultura, obra que reúne pesquisa acadêmica, experiência profissional e um olhar atento para a realidade das comunidades ribeirinhas da Amazônia.
Embora hoje esteja distante geograficamente da cidade onde cresceu, Donizete mantém fortes vínculos com Ribeirão Branco. Foi em Ribeirão que ele viveu desde os seis anos de idade, cursando todo o ensino fundamental e médio. Filho de produtores rurais, guarda lembranças de uma infância marcada pelo trabalho e pela simplicidade.
“Meu pai vendia frutas, verduras e outros produtos que produzíamos no sítio. Minha mãe vendia queijo”, recorda.
Ao falar sobre si, Donizete prefere destacar aspectos humanos antes dos acadêmicos.
“Me apresento como pai atípico, esposo, estudante e pessoa com deficiência. Já fui filho, sou amigo, irmão, tio, primo. Para mim, isso é o que mais importa”, afirma.
Uma pesquisa que revelou um Brasil invisível
Segundo o autor, a ideia do livro nasceu de uma pesquisa acadêmica associada às suas experiências profissionais. O contato com a realidade das comunidades amazônicas despertou uma inquietação que acabou se transformando em projeto editorial.
“A pesquisa me revelou um Brasil de muito sofrimento”, resume.
A obra aborda principalmente as dificuldades sociais enfrentadas pelas populações ribeirinhas da região Norte. Conhecidos como “povos das águas”, os ribeirinhos vivem às margens dos rios amazônicos e enfrentam desafios cotidianos relacionados ao acesso à educação, infraestrutura básica e serviços públicos.
Das estradas de terra de Ribeirão Branco aos rios da Amazônia
Parte da motivação para escrever o livro veio das próprias experiências vividas durante a infância no interior paulista.
Donizete lembra das dificuldades enfrentadas por ele e seus irmãos para frequentar a escola, muitas vezes caminhando longas distâncias ou utilizando cavalos como meio de transporte.
Apesar disso, afirma que a realidade encontrada na Amazônia é ainda mais complexa.
“Nas comunidades ribeirinhas tudo é mais difícil. As aulas dependem das marés, o calendário escolar muda por causa da cheia dos rios, muitas localidades não têm energia elétrica, internet ou água tratada. É um povo muito sofrido e bastante esquecido.”
A partir dessa constatação, decidiu produzir uma obra que unisse cultura e educação para apresentar ao restante do país os desafios enfrentados diariamente por essas comunidades.
Pesquisa construída em rede
Ao longo de sua trajetória acadêmica, Donizete teve a oportunidade de desenvolver trabalhos e publicações ao lado de pesquisadores reconhecidos em diferentes áreas do conhecimento, entre eles Flávio Martins Nunes Junior, Eliane Octaviano Martins, Célia Zisman e Marcelino Guedes.
Segundo o autor, o intercâmbio de experiências e perspectivas com pesquisadores de diferentes regiões do país tem sido fundamental para ampliar o debate sobre educação, direitos sociais, cidadania e os desafios vividos por populações historicamente invisibilizadas.
Outra característica de sua atuação é a preferência por publicar parte de sua produção intelectual em veículos periféricos e espaços alternativos de circulação do conhecimento.
A proposta, segundo ele, é contribuir para a democratização do acesso à informação e aproximar a pesquisa acadêmica das comunidades que muitas vezes estão distantes dos grandes centros universitários e editoriais.
Lançamento reuniu pesquisadores de todo o Brasil
Embora tenha sido escrito no Amapá e publicado pela Editora Maya Livros, o lançamento simbólico ocorreu no Maranhão, durante um encontro acadêmico do GEDDMA/UFMA, grupo de estudos e pesquisas que se dedica à compreensão das dinâmicas sociais, culturais e políticas da Amazônia e de outros territórios marcados por processos de resistência.
Coordenado pelo professor Horácio Antunes, o grupo reúne pesquisadores de diversos estados brasileiros, além de integrantes da comunidade acadêmica latino-americana.
Donizete fez questão de destacar o acolhimento recebido pelos integrantes do grupo ao longo de sua caminhada acadêmica.
“O GEDDMA me acolheu de braços abertos e teve papel importante na construção deste percurso”, destaca.
Para o autor, mais importante que a cerimônia de lançamento é a contribuição que a pesquisa pode oferecer para a construção de soluções concretas.
“Nosso foco é demonstrar os problemas encontrados para pensar soluções e contribuir na formação de pessoas capazes de criar políticas públicas eficazes que minimizem as dificuldades enfrentadas por essas populações.”
Parceria editorial
A publicação da obra contou com o apoio da Editora Maya Livros, responsável pela produção do livro.
Donizete também reconhece a contribuição da professora e editora Letícia Fernanda Rodrigues, fundadora da editora, que acompanhou o processo de publicação e auxiliou na transformação da pesquisa acadêmica em uma obra acessível ao público.
Um convite para enxergar o Brasil real
Questionado sobre a principal mensagem que espera transmitir aos leitores, Donizete não hesita.
“Quero mostrar que o Brasil dos comerciais de televisão e das redes sociais é um Brasil inventado. Ainda há muito a ser feito para que as pessoas possam comer, beber e se sentir tratadas com dignidade.”
A mensagem final também foi direcionada aos jovens que sonham em estudar, pesquisar, escrever e publicar suas próprias obras.
“Vai para o mundo. Sua situação atual não define quem você será. Respeite todas as pessoas e nunca abaixe a cabeça quando tentarem lhe humilhar.”
Com Rio, Ribeirinho e Cultura, o ex-morador de Ribeirão Branco amplia sua atuação como pesquisador e escritor, levando para o debate público as vozes e as realidades de populações que, muitas vezes, permanecem invisíveis para grande parte do país.
QUEM É DONIZETE VAZ FURLAN?
Donizete Vaz Furlan é colunista do Diário de Ribeirão Branco, pesquisador e escritor. Naturalmente ligado à cidade de Ribeirão Branco, onde viveu desde a infância e concluiu os estudos básicos, atualmente reside em Macapá, no Amapá.
Pai atípico, esposo, estudante e pessoa com deficiência, Donizete costuma definir sua trajetória a partir das experiências humanas que moldaram sua visão de mundo. Sua atuação acadêmica e profissional tem se voltado especialmente para questões sociais, culturais e educacionais relacionadas à Amazônia brasileira.
É autor do livro “Rio, Ribeirinho e Cultura“, obra que aborda os desafios enfrentados pelas comunidades ribeirinhas da região Norte e busca ampliar a compreensão sobre a realidade dos chamados “povos das águas”.
Participa de grupos de pesquisa que estudam os processos de resistência, cultura e desenvolvimento na Amazônia, colaborando com pesquisadores de diversas regiões do Brasil e da América Latina.
Por meio de seus artigos e pesquisas, busca dar visibilidade a populações frequentemente esquecidas pelos grandes centros de decisão e contribuir para o debate sobre educação, cidadania e dignidade humana.
Livro: Rio, Ribeirinho e Cultura
Lançamento: 5 de junho de 2026
Editora: Maya Livros
Tema: Cultura, educação e desafios sociais das comunidades ribeirinhas da Amazônia.





