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Inclusão no papel, exclusão no cotidiano: quando os números não enxergam pessoas

Entre gráficos otimistas e salas de aula exaustas, a inclusão vira discurso — enquanto pessoas seguem invisíveis no cotidiano escolar.
Ilustração

Existe hoje uma narrativa confortável sendo repetida sobre inclusão. Ela aparece em relatórios oficiais, discursos institucionais e apresentações bem diagramadas, cheias de números organizados. Fala-se em avanço, crescimento de matrículas, políticas exitosas. No papel, tudo parece funcionar. Mas quem vive a escola por dentro sabe: há uma distância profunda entre o que é divulgado e o que é vivido. A falsa percepção de inclusão nasce exatamente aí — quando o dado estatístico passa a valer mais do que a experiência concreta de quem aprende, de quem ensina e de quem cuida.

A episteme dominante sobre inclusão ainda trata a pessoa com deficiência como marca de cumprimento institucional. Estar matriculado vira sinônimo de estar incluído. O número vira troféu. A presença física passa a ser apresentada como vitória, mesmo quando faltam mediadores, formação adequada, materiais acessíveis, estrutura mínima e tempo pedagógico real. O Estado contabiliza, divulga e comemora, mas raramente acompanha o que acontece depois que o portão da escola se fecha. Nesse formato, a inclusão vira dado frio — descolado do corpo, da emoção e da dignidade de quem tenta existir, todos os dias, em um sistema que nunca foi pensado para ele.

Na prática, o que se vê é que a inclusão real não acontece por força das políticas, mas pela insistência das pessoas. Professores exaustos, cuidadores sobrecarregados, auxiliares improvisando soluções, profissionais da educação segurando crises emocionais sem preparo suficiente, sem apoio psicológico, sem reconhecimento institucional. São eles que adaptam atividades em casa, aprendem no erro e no acerto, gastam do próprio bolso, chegam mais cedo e saem mais tarde. A inclusão que existe acontece aos trancos e barrancos, sustentada por humanidade — não por estrutura. E isso tem um custo físico e emocional alto, que quase nunca entra nos relatórios.

É preciso dizer também que a exclusão não se manifesta apenas nas falhas do Estado. Ela aparece dentro da própria sala de aula, entre as crianças, de forma sutil ou escancarada. O isolamento, a zombaria, o afastamento não surgem do nada. Crianças reproduzem discursos, medos e preconceitos que muitas vezes vêm de casa. O capacitismo é aprendido cedo, quando se ensina que o diferente atrapalha, que o ritmo precisa ser único, que quem não acompanha deve ser empurrado para fora do convívio. A escola tenta corrigir isso, mas sozinha não consegue. Inclusão não é só política educacional: é cultura, é educação social, é responsabilidade coletiva.

Dizer tudo isso não é atacar a escola, nem deslegitimar avanços reais que existem. É, ao contrário, reconhecer que incluir não é simples, não é rápido e não é indolor. É um processo imperfeito, cansativo, cheio de falhas e tentativas. Fingir que está tudo resolvido porque os números melhoraram é desrespeitar quem vive a dificuldade cotidiana. Inclusão não é espetáculo, não é propaganda e não pode ser tratada como medalha institucional.

Talvez, então, o gesto mais honesto seja agradecer. Agradecer a quem cuida quando o sistema falha. A quem ensina mesmo sem recursos. A quem acolhe mesmo estando no limite. Esses profissionais não aparecem nos gráficos, mas deixam marcas profundas na vida de quem foi visto, ouvido e respeitado. E nenhuma estatística consegue medir isso.

Como sempre, um abraço — na medida da sua necessidade.

Sobre a Coluna

A coluna de Donizete Furlan será publicada semanalmente no Diário de Ribeirão Branco, sempre com textos que entrelaçam Direito, memória e cotidiano. Um convite ao pensamento crítico com raízes no interior.

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