
Antes de qualquer conceito difícil, vale começar do jeito mais simples: biopoder é o poder que decide como a vida vai ser vivida. Não é só sobre mandar ou proibir. É sobre organizar quem tem acesso à saúde, ao tempo, ao cuidado, ao direito de existir com dignidade. Quando esse poder falha, se omite ou escolhe não olhar para certos lugares, como o interior, ele não mata de uma vez, mas vai consumindo vidas aos poucos. É aí que entra a necrofagia interiorana: um sistema que se alimenta do desgaste, do abandono e do silêncio, deixando pessoas vivas no corpo, mas cansadas na alma, excluídas sem que seja preciso declarar exclusão.
No interior, o poder raramente grita. Ele age em silêncio. Decide quem espera, quem cansa, quem desiste. Decide quem merece atenção agora e quem pode ficar para depois. É assim que o biopoder funciona longe dos holofotes: administrando vidas por meio da escassez, escolhendo quem vai continuar e quem vai, aos poucos, sumir do mapa.
Não precisa polícia na esquina nem decreto publicado. Basta uma fila que nunca anda. Um posto de saúde sem médico fixo. Um benefício que exige documentos que ninguém explicou como tirar. Um ônibus que passa duas vezes por semana. O corpo vai se adaptando, adoecendo, envelhecendo antes da hora. Não é morte imediata. É desgaste. É consumo lento.
Essa é a máquina necrófaga: não mata de uma vez, vai comendo por dentro. Come o tempo, a saúde, a esperança. Come a juventude que vai embora porque aqui não tem futuro. Come o idoso que espera atendimento. Come a mulher que trabalha, cuida, aguenta e ainda escuta que “é forte”. Come o trabalhador rural que produz, mas não acessa direito algum.
No interior, a exclusão não vem com sirene. Vem com a frase: “sempre foi assim”. E quando o absurdo vira normal, o sistema vence. Porque ninguém reclama do que parece natural. A ausência vira regra. A precariedade vira paisagem.
E não é falta de gente boa. Não é falta de esforço individual. É política pelo abandono. É gestão pela omissão. É quando o Estado escolhe não chegar — e escolhe chamar isso de limitação orçamentária, logística ou prioridade. Mas o corpo sente. A vida sente. A comunidade sente. O biopoder no interior escolhe quem pode viver com dignidade e quem só pode sobreviver. E sobreviver cansa. Cansa muito.
Escrever sobre isso não é exagero. É cuidado. É lembrar que ninguém deveria adoecer para provar que existe. Que ninguém deveria morrer socialmente para o sistema funcionar sem incômodo. Se você já se sentiu invisível, atrasado na fila da vida, cansado de explicar sua dor, saiba: o problema não é você.
Mas você pode ser parte da solução. Cobre. Fiscalize. Denuncie.
Como sempre, deixo aqui um abraço na medida exata da sua necessidade.





