
Falar de agricultura familiar em Ribeirão Branco não é falar de estatística. É falar de vida real. De gente que acorda antes do sol, pisa no barro frio, sente o peso do dia antes mesmo de ele começar. Eu sei disso porque sou cria daqui. Porque colhi tomate, porque ajudei a vender na charrete com meu pai, porque vi de perto o esforço silencioso que nunca virou manchete, mas sempre virou alimento na mesa de alguém.
O tomate fez Ribeirão Branco ser chamada de Cidade do Tomate. Não por marketing, mas por insistência. Por produtividade arrancada no braço, na enxada, no improviso. O tomate aqui não é só economia: é identidade, é cultura, é memória viva do interior paulista que ainda resiste.
Mas é preciso dizer com honestidade: resistir cansa. E cansa muito mais quando o pequeno produtor precisa lutar não só contra o clima, as pragas e o preço instável, mas também contra a burocracia e a ausência de apoio real. Falar em crédito rural, financiamento e incentivo ao pequeno empreendedor do campo ainda soa, para muitos agricultores, como promessa distante. O acesso é difícil, os critérios são duros, a informação não chega — e, quando chega, vem tarde demais.
A prefeitura faz o básico. O mínimo do mínimo. Cumpre tabela. Não há esse amparo amplo que costuma aparecer em discursos oficiais. O agricultor familiar continua batendo sozinho nas portas dos bancos, tentando entender formulários que não dialogam com a sua realidade, enfrentando exigências que parecem feitas para quem já tem estrutura — e não para quem precisa dela para sobreviver.
Projetos existem no papel. A ideia de agregar valor à produção, fortalecer o associativismo, criar pequenas agroindústrias é correta. Mas, sem crédito acessível, sem orientação contínua e sem políticas públicas verdadeiramente comprometidas, tudo isso vira expectativa frustrada. O empreendedor rural não quer favor. Quer condição justa de competir, produzir e permanecer no campo com dignidade.
Ainda assim, o modo de vida camponês segue firme. Não porque o sistema ajuda, mas porque as pessoas não desistiram. Ribeirão Branco continua de pé porque há mãos calejadas segurando a cidade. Cada lavoura mantida, cada safra insistida, cada caixa de tomate colhida é um ato silencioso de resistência.
Valorizar a agricultura familiar é reconhecer que o interior de São Paulo não se sustenta sem ela. É entender que desenvolvimento sustentável não nasce apenas de grandes investimentos, mas da permanência do pequeno produtor na terra, com renda, respeito e futuro.
Que 2026 traga mais do que discursos. Que traga caminhos reais, crédito acessível e políticas públicas que enxerguem o agricultor como ele é: trabalhador essencial, e não obstáculo burocrático.
A todos que seguem fazendo Ribeirão Branco produzir, mesmo quando tudo parece jogar contra, meu respeito profundo.
Feliz 2026, com prosperidade, força e colheitas mais justas.
Como sempre, deixamos um abraço na medida da sua necessidade — o primeiro do ano.





