Mais do que oferecer moradia, garantir dignidade à população idosa também significa promover qualidade de vida e bem-estar para que possam aproveitar plenamente a melhor idade. Para que isso aconteça, o Estado de São Paulo mantém, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (SDUH), o programa Vida Longa, uma importante iniciativa que garante segurança habitacional e acolhimento a idosos em situação de vulnerabilidade social, em especial os que possuem vínculos familiares fragilizados.
O programa integra a política habitacional do Estado, tem caráter protetivo e é um aperfeiçoamento do antigo Vila Dignidade. Criado em 2009 o Vila Dignidade entregou 18 empreendimentos, totalizando 356 unidades. Em 2019, a iniciativa foi reformulada e passou a se chamar Vida Longa, entregando, até o final de 2022, cinco empreendimentos, com 118 unidades. Já no início de 2023, a iniciativa foi fortalecida e recebeu novos investimentos para viabilizar outras moradias. Como resultado, em dois anos foram entregues 17 conjuntos do Vida Longa. As novas entregas permitiram que 460 idosos passassem a ser atendidos pelo projeto, que já beneficia, ao todo, mais de 930 pessoas com 60 anos ou mais.
O município de Catanduva, na região de São José do Rio Preto, foi um dos contemplados pelo Vida Longa e recebeu, em junho de 2023, o Residencial Amália Nunes, composto por 28 casas. É lá que a senhora Edna da Silva, de 72 anos, mora há cerca de um ano e viu sua vida ser transformada. “Eu pagava R$600 de aluguel quando surgiu essa oportunidade. Eu vim para cá e para mim foi bom. Se não fosse esse programa, eu não ia estar bem, não. O aluguel estava subindo e, com água, luz, gás e a comida, as coisas iam ficar bem complicadas”, conta.
Com a moradia gratuita, Edna passou a investir em outras áreas antes comprometidas pelo orçamento. “Esse dinheirinho que sobra do aluguel, da água e da luz, que agora não pagamos mais, conseguimos comer melhor, comprar uma roupinha melhor, viver melhor. Não tenho nada do que reclamar. Eu dou nota 11 de 10 para o Vida Longa. Para mim, melhorou bastante”, elogia.
O mesmo aconteceu com a vizinha Marisa Garcia Gonzaga, de 70 anos, que agora, sem a preocupação destes gastos, planeja fazer uma viagem por ano. “Vir para cá foi um alívio, porque agora eu não pago aluguel, nem água, nem luz, só gasto mesmo com alimentação, além de internet e roupa. Inclusive, comecei a pagar um pacote em janeiro e viajo no final do ano”, conta a pensionista, que vendeu a casa onde morava com o marido, pouco antes de ficar viúva. “Meu marido faleceu de repente, aí eu me vi sem chão. Continuei pagando aluguel, mas passei um pouco de necessidade”, conta.

Os idosos beneficiados com o direito de uso da unidade não pagam pela moradia, nem pelo consumo de energia elétrica e de água e são selecionados pelas prefeituras dos municípios interessados, que ficam responsáveis pela doação do terreno onde os empreendimentos serão construídos pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) e pela gestão e manutenção do conjunto após a conclusão das obras. A parceria também incluiu a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social (SEDS), que presta suporte para o programa.
Uma unidade do Vida Longa também foi construída no município de Barretos, na Região Administrativa de Barretos. Lá, a melhora de vida também é uma realidade percebida pelos moradores. Maria Aparecida Pereira, de 73 anos, mora no conjunto há dois anos e conseguiu, também com o dinheiro que economizou de contas que não paga mais, realizar sonhos que antes eram inviáveis. “Tinha muita coisa que a gente precisava e não tinha condições de comprar. Tinha vontade de comer alguma coisa e não podia, mas agora eu como o que eu tenho vontade. Se eu quero comprar uma coisa, eu vou lá e compro. Máquina de lavar roupa eu nunca tinha tido, comprei uma há pouco tempo. Foi muito bom para mim, tem que agradecer a Deus”, conta.
Acessibilidade, acolhimento e socialização
Os residenciais do Vida Longa são projetados para oferecer acessibilidade e segurança aos idosos. As casas térreas são construídas em terreno plano e possuem sala de estar e dormitório conjugados, banheiro e área de serviço. Além disso, seguem parâmetros do Desenho Universal, que estabelecem um conceito arquitetônico adaptável para permitir facilidade no uso da moradia por qualquer indivíduo com dificuldade de locomoção, temporária ou permanente. Itens de segurança e acessibilidade constam no projeto, como barras de apoio, pias e louças sanitárias em altura adequada, portas e corredores mais largos, interruptores em quantidade e altura ideais, alarmes de emergência sonoros e luminosos e piso antiderrapante.
Pensando em promover a socialização entre os moradores, os conjuntos também possuem áreas comuns de convivência, como sala de estar, horta elevada, academias ao ar livre, churrasqueira e salão de festas – todas acessíveis.
Em Catanduva, por exemplo, estes espaços são aproveitados para realizar as atividades que a Casa de Apoio à Criança, Adolescente e Idoso, contratada pela prefeitura para gerenciar a unidade, oferece. “Nós oferecemos no dia a dia várias atividades, como musicoterapia, aulas com EVA, roda de conversa, dinâmicas, caminhadas, alongamentos, passeios, além de festas em datas comemorativas, como aniversariantes do mês. Tudo isso feito pensando no bem-estar do idoso”, aponta Lara Fernandes de Sousa, que gerencia a unidade desde a inauguração.
Para atender as necessidades dos moradores do conjunto, os conjuntos habitacionais contam com equipe multidisciplinar composta por psicólogo, assistente social, cuidadores diurnos e noturnos, além de quatro vigias, que garantem a segurança do empreendimento durante 24 horas.

Em Barretos, atividades similares são promovidas desde 2022, quando o empreendimento administrado pelo Instituto Amor foi inaugurado. “Aqui a gente busca oferecer a maior quantidade de atividades possíveis – tem artesanato, oficina de fisioterapia, atividade de desenvolvimento cognitivo, oficina da horta. Não obrigamos, mas incentivamos. No período noturno, temos parceria para aula de alfabetização”, conta Reinaldo Carlos Costa, coordenador do Vida Longa na região.
Um projeto especial foi idealizado para que os idosos não só colocassem em prática o que foi aprendido na sala de aula, mas preservassem a sua história de vida. Cada morador fez um livro contando a sua trajetória. “A gente conta sobre a nossa vida, o passado, o trabalho. Eu gostei muito de escrevê-lo. Contei meu passado como cozinheira no Corpo de Bombeiro durante 16 anos e outras coisas”, explicou Alda André, de 77 anos, que já está no residencial há três anos.
Mais do que vizinhos, família
As atividades realizadas nos conjuntos também são uma ferramenta importante para criar vínculos entre os moradores, muitos dos quais precisam estreitar novos laços de convivência, uma vez que a ligação familiar está fragilizada. “O projeto, possibilita não só uma moradia sem custo, mas sim a possibilidade de dar dignidade ao idoso”, avalia, ainda, o coordenador do empreendimento em Barretos.
O senso de comunidade e de pertencimento é sentido pelos moradores, conforme como conta Maria Aparecida. “Aqui é como uma família. Um se preocupa com o outro. A gente tem muita amizade e minha casa sempre tem gente. Às vezes, vem um, vem outro, então tem sempre gente aqui, é muito legal”, explica ela, ao elencar, ainda, a rotina no conjunto. “A gente faz exercício físico três vezes por semana e temos artesanato, exercícios com a psicóloga para trabalhar a memória. É muito bom e ajuda muito, passa a hora que a gente nem vê”, conta.
Quando chegou no condomínio, Maria estava com dificuldades de locomoção por conta de um acidente e as atividades realizadas no local ajudaram na sua recuperação. “Quando me mudei, nem andar de ônibus eu conseguia. Eu quebrei a perna e fiquei um mês sem andar. Consegui voltar a andar sem dificuldade e a subir no ônibus depois que comecei a fazer os exercícios, foi muito bom”, comemora.
Em Catanduva, os vínculos criados também foram fundamentais para a recuperação de José Carlos Batista, de 65 anos, que chegou a enfrentar a depressão e recuperou seu bem-estar e a sua saúde mental, antes fragilizada pelo abandono. “Eu ficava muito sozinho, era duro. Agora durmo bem, acordo cedo, ligo meu rádio e fico animado, tenho minha hortinha aqui no fundo. Esse lugar transformou minha vida”, comemora.

Além das entregas já realizadas, ainda estão em produção no Estado de São Paulo 11 residenciais, totalizando 278 unidades. As prefeituras interessadas em implementar os equipamentos em seus municípios devem realizar a solicitação à SDUH, que analisará a viabilização do pedido de acordo com a necessidade e a disponibilidade orçamentária.
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