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Escalpelamento: Uma dor que não podemos ignorar

Colunista alerta para a realidade brutal e esquecida do escalpelamento na Amazônia, cobra prevenção e políticas públicas eficazes, e reforça que toda dor merece ser ouvida.
Ilustração

Querido leitor,

Hoje, peço licença à querida população de Ribeirão Branco e a todos que acompanham esta coluna para falar de algo que, para muitos, será um assunto novo; mas, para quem vive às margens dos rios da Amazônia, é uma realidade dolorosa e antiga. Trata-se do escalpelamento, um acidente grave que acontece quando os cabelos — de mulheres, homens, crianças e adolescentes — se enroscam no motor dos barcos, arrancando parcial ou totalmente o couro cabeludo.

O escalpelamento acontece, na maioria das vezes, de forma repentina e brutal. Imagine uma criança ou uma jovem sentada próxima ao motor de um barco, cabelos soltos ao vento. Em segundos, um fio é sugado pela rotação da engrenagem exposta. Não há tempo para reagir. A força do motor puxa todo o cabelo, junto com a pele do couro cabeludo, sobrancelhas e, em alguns casos, parte das orelhas e da pele do rosto. O grito é imediato, seguido do silêncio de quem entra em choque. O sangue escorre, a dor é insuportável e o desespero toma conta de todos a bordo. Muitas vezes, é preciso navegar horas até um posto de saúde ou hospital, enquanto a vítima luta contra a dor e a perda de sangue. É um momento que marca não só o corpo, mas a vida inteira.

Quem nunca viu de perto talvez nem consiga imaginar a dimensão dessa dor. Não é apenas o ferimento físico, embora ele seja devastador e, muitas vezes, irreversível. O escalpelamento deixa marcas que atravessam o corpo e se instalam na alma. A vítima não perde apenas os fios de cabelo; perde parte da autoestima, da identidade e da confiança no próprio espelho.

O pós-escalpelamento é um caminho longo e solitário para muitos. Vem a dor das cirurgias, das reabilitações, das visitas a hospitais que, muitas vezes, ficam a horas ou dias de viagem de suas comunidades. Vem também a dor do olhar alheio — aquele olhar que não sabe esconder o espanto, a pena ou até o preconceito. É a dor de ter que explicar, sempre, o que aconteceu.

E, como se não bastasse, ainda há a barreira invisível, mas cruel, do acesso aos programas sociais. Muitos não conseguem documentação completa, transporte para consultas ou sequer uma orientação sobre seus direitos. As políticas públicas chegam devagar — quando chegam. O resultado? Uma luta diária não apenas contra as sequelas físicas, mas contra um sistema que insiste em esquecer quem vive longe das capitais.

As dores psicológicas, essas, não cicatrizam com remédios. São noites de insônia, crises de ansiedade, depressão, isolamento. É o medo de voltar ao rio, medo do motor, medo de sair de casa. E é preciso que a gente entenda: a cicatriz na cabeça pode ser coberta, mas a cicatriz no coração não se esconde.

Apesar de tudo, há esperança. Existem projetos como os conduzidos pela Marinha do Brasil, o Grupo de Mulheres Escalpeladas e organizações não governamentais que buscam oferecer próteses, apoio psicológico, capacitação profissional e até embarcações adaptadas com proteção nos motores. São iniciativas que mostram que a dor pode ser transformada em força, que a vida pode ser reconstruída.

Mas, para que essas histórias de superação sejam mais comuns, é preciso mais. É preciso que a sociedade conheça, fale e cobre soluções. É preciso que a prevenção seja lei e prática, que cada barco tenha proteção obrigatória no motor. É preciso que o poder público esteja presente, não apenas no discurso, mas na vida de quem mais precisa.

A quem já sofreu o escalpelamento, deixo meu respeito e minha solidariedade. Vocês não estão sozinhos. E a você, leitor, deixo um convite: vamos dar visibilidade a esse tema. Porque a dor que o Brasil não vê, ele não cura.

Receba um abraço fraterno, na medida da sua necessidade, de um humanista que acredita que toda vida tem valor e toda dor merece ser ouvida.

Um até breve.

Contato
donizete@gouveiaefurlan.com.br

Sobre a Coluna

A coluna de Donizete Furlan será publicada semanalmente no Diário de Ribeirão Branco, sempre com textos que entrelaçam Direito, memória e cotidiano. Um convite ao pensamento crítico com raízes no interior.

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