
Hoje é 1º de junho de 2025. Vi no feed uma nota fria de falecimento: Fernando Machado da Rosa, nascido em 16 de maio de 1985, falecido em 31 de maio de 2025. Travei.
Fernando — o Fernandinho — foi meu primeiro amigo quando me mudei para Ribeirão Branco. Minha família viera de Campina de Fora, um distrito rural. Era por volta de 1996 ou 97. E ele estava lá. Com um sorriso fácil, uma piada na ponta da língua, uma bicicleta e uma locadora.
A Stop Vídeos ficava bem em frente à minha casa. Era do tio dele, Jair. Fitas VHS, capas chamativas, promoções para o fim de semana. Fernando trabalhava ali. E foi ele quem me apresentou gente, me ensinou caminhos, dividiu pedaladas. A gente andava de bicicleta até onde as pernas deixavam — eu, ele e meu irmão, que também já se foi. Éramos um trio. E, por um tempo, o mundo cabia nisso.
Depois, veio o que sempre vem: mudança de casa, de escola, de sala. Em cidades pequenas, perder contato às vezes é mais fácil do que parece. E foi o que aconteceu.
Mas me lembro das nossas conversas, das paqueras tímidas com as meninas da rua, das tardes longas em que o maior problema era rebobinar a fita antes de devolver. Me lembro de ver o Fernando na adolescência, ainda pelas ruas, cumprimentando de longe, trocando uma ou outra ideia. Me lembro da família dele inteira. E lembro, principalmente, da sensação de ter um amigo de verdade.
Faz 15 anos que não volto a Ribeirão Branco. Nem para passear. E hoje, a última notícia que tive de alguém tão presente na minha infância… foi a da morte.
A gente cresce achando que os personagens da infância vão durar para sempre. E talvez durem, de um jeito torto, naquilo que a memória preserva. Mas há algo de abrupto e incômodo em saber que o menino da bicicleta, o da locadora, o das piadas, agora é lembrança.
Luto é isso: uma conversa que nunca mais vai acontecer. Um amigo que não se despediu. Um pedaço de quem fomos que some do mundo.
O filósofo francês Paul Ricoeur dizia que “a memória é a costura entre o vivido e o narrado”. E talvez seja isso que eu esteja tentando fazer aqui: costurar a ausência com palavras. Dar forma a um silêncio.
Não sei a causa da morte do Fernando. Mas sei que ele foi importante. E isso basta para que doa. Deixo aqui minhas condolências à família — que certamente sente essa perda de um jeito ainda mais fundo. E deixo também a lembrança: de um Fernando leve, engraçado, generoso. De um Fernandinho com vento na cara, filme na mochila e liberdade no guidão.
Que descanse em paz. E que essa memória — simples, mas cheia de afeto — continue com a gente.
Texto de Ricardo Alcantara – Editor-chefe do Diário de Ribeirão Branco. Em homenagem a Fernando Machado da Rosa.





